Pular para o conteúdo
Recrutamento

Assessment center: o que é e quando ele vale a pena

Nem toda dinâmica de grupo é assessment center. O que define o método, o que a evidência mostra sobre ele e quando o custo realmente se justifica.

Grupo diverso de profissionais reunido em roda durante uma conversa no escritório, vários rostos atentos

Assessment center é um método de avaliação em que um grupo de candidatos passa por vários exercícios que simulam o trabalho real, enquanto avaliadores treinados observam e registram comportamentos. O nome engana de duas maneiras ao mesmo tempo. Não é um lugar, apesar de a palavra centro sugerir isso, e não é um exercício só, apesar de o termo circular por aqui quase como sinônimo de dinâmica de grupo. É um conjunto. E é a característica de conjunto que responde tanto pela força quanto pelo custo do método.

Não é um lugar, e não é um teste

Uma das definições mais diretas vem do escritório de gestão de pessoas do governo dos Estados Unidos, o Office of Personnel Management, que mantém uma biblioteca pública sobre métodos de seleção. A definição começa exatamente por desfazer o mal-entendido: o assessment center não é um lugar, como o nome sugere, nem um processo ou método único. É o emprego de vários métodos e exercícios de avaliação para medir uma gama ampla de competências, com o objetivo de sustentar decisões sobre pessoas, entre elas seleção, promoção e desenvolvimento de carreira.

Boa parte desses exercícios se parece com prova de trabalho, isto é, tarefas construídas para reproduzir os desafios reais da função. O desempenho costuma ser observado e avaliado por mais de um avaliador. E o método é especialmente eficaz para medir competências de gestão e de liderança, que aparecem em situação e são difíceis de enxergar numa conversa de quarenta minutos.

Há uma distinção fina que costuma passar batida e vale registrar. Quando o assessment center é usado para promoção interna, faz sentido que ele reflita valores e práticas específicas daquela empresa. Quando é usado para avaliar candidatos de fora, ele deveria estar centrado no cargo e no nível do cargo, não em particularidades da casa que ninguém de fora teria como conhecer. Misturar as duas coisas é um jeito silencioso de reprovar gente boa por não adivinhar o jargão interno.

O que separa um assessment center de uma dinâmica de grupo

Comparação entre dinâmica de grupo e assessment center: a dinâmica tem um exercício, critério combinado depois, quem estiver livre observa e resulta em impressão; o assessment center tem competências vindas do cargo, vários exercícios que simulam o trabalho, avaliadores treinados e resultado em comportamento observado
A diferença não é de tamanho, é de método.

Boa parte do que se chama de assessment center por aqui é, na prática, uma dinâmica de grupo um pouco mais longa. A diferença não é de duração nem de sofisticação do exercício. São três decisões, tomadas antes de o primeiro candidato entrar na sala.

A primeira é definir as competências antes, a partir do trabalho. Não é escolher da prateleira as quatro palavras que soam bem, é olhar o que a função exige e traduzir isso em comportamentos que dá para observar e verificar. Esse é o mesmo raciocínio do mapeamento de competências, e sem ele o resto desanda, porque avaliador sem critério avalia simpatia.

A segunda é usar mais de um exercício, e exercícios que simulem o trabalho. Uma pessoa pode ir mal numa apresentação e muito bem numa negociação. Uma única situação captura um recorte estreito demais para sustentar uma decisão de contratação.

A terceira é ter mais de um avaliador, treinado, registrando comportamento observado em vez de impressão. Não é preciosismo: o Office of Personnel Management registra que a validade preditiva do método varia conforme o propósito da avaliação, o grau de treinamento dos avaliadores e os métodos usados, e aponta a meta-análise de Gaugler e colegas, de 1987, como referência para essa variação. Ou seja, treinar quem observa não é um detalhe de execução, é uma das variáveis que decidem se o processo prevê alguma coisa. Sem isso, o que sobra é um grupo de gestores comparando quem falou mais alto.

Os exercícios que costumam compor

Dois formatos aparecem com frequência. O primeiro é a caixa de entrada, conhecida pelo nome original in-basket, desenhada para simular tarefas administrativas: a pessoa assume o papel de alguém que acabou de chegar ao cargo e precisa ler e reagir a uma pilha de memorandos, mensagens, relatórios e comunicados. O segundo é a discussão em grupo sem líder designado, em que um conjunto de candidatos recebe um problema, ou uma série de problemas, e um tempo limitado para resolvê-los.

A esses se somam, com frequência, provas de conhecimento do cargo, testes de personalidade e a entrevista estruturada, prima próxima da entrevista por competências. Entre as competências que esse desenho consegue medir estão habilidades interpessoais, comunicação oral e escrita, planejamento e avaliação, e raciocínio e resolução de problemas.

Vale notar um efeito colateral prático desse tipo de material: ele envelhece. O próprio Office of Personnel Management observa que o conteúdo dos exercícios precisa ser atualizado com frequência, tanto porque os candidatos se lembram dos casos muito tempo depois, o que cria um problema de segurança da prova, quanto porque o cenário se desatualiza. O exemplo que eles dão é revelador: uma caixa de entrada montada na época em que memorandos chegavam por fax já não se sustenta.

As quatro etapas de um assessment center em sequência: mapear as competências do cargo, desenhar os exercícios que simulam o trabalho, treinar quem vai avaliar e integrar tudo numa decisão
A ordem importa: competência primeiro, exercício depois.

Repare que a sequência de montagem tem uma ordem que quase nunca é respeitada. O caminho correto começa pelas competências do cargo e só então desenha os exercícios que vão fazê-las aparecer. O caminho comum faz o contrário: escolhe um exercício que pareceu interessante e depois procura descobrir quais competências ele mediria. O segundo caminho produz processos bonitos que avaliam a coisa errada.

A quarta etapa é a que mais se perde no caminho, e é a que fecha o método: integrar as observações numa decisão. Não basta cada avaliador sair com sua ficha. Alguém precisa juntar o que foi observado, competência por competência, e converter isso numa recomendação. Quando essa etapa não existe, o que acontece é a soma de impressões vencendo por maioria, e todo o cuidado das três etapas anteriores se perde no último metro.

O que a evidência diz, e por que o número se mexeu

Aqui vale contar a história inteira, porque ela mudou faz pouco tempo e mudou para todo mundo, não só para o assessment center.

Durante décadas, a área de seleção trabalhou com um conjunto de estimativas de validade que vinha da síntese clássica de Frank Schmidt e John Hunter, publicada em 1998. Em 2022, um grupo de pesquisadores liderado por Paul Sackett mostrou que essas estimativas estavam sistematicamente infladas, por causa de um problema técnico na forma como se corrigiam as correlações para a chamada restrição de amplitude. O efeito foi amplo e considerável: as provas de trabalho caíram 0,21 ponto em relação à estimativa antiga, os testes de habilidade cognitiva caíram 0,20 e a entrevista não estruturada caiu 0,19. A entrevista estruturada passou a ser o método com a maior validade média da lista.

O assessment center entrou nessa revisão com validade operacional de 0,29, na oitava posição do ranking. Em 2023, os mesmos autores publicaram um ajuste específico para ele. O argumento é elegante: as correções aplicadas em 2022 usaram um valor médio de confiabilidade do critério de desempenho de 0,60, mas uma meta-análise de Zhou e colegas, de 2022, mostrou que essa confiabilidade é bem menor em cargos de gestão, 0,46, contra 0,61 em cargos não gerenciais. E o assessment center é o único método da lista usado predominantemente para cargos de gestão. Usando o valor adequado, a estimativa sobe de 0,29 para 0,33, e o método salta da oitava posição para um empate em quarto com as provas de trabalho. Os próprios autores comentam a simetria do resultado: o assessment center é, afinal, uma forma específica de prova de trabalho, então validade parecida faz sentido.

Com isso, ele entra no grupo dos cinco métodos mais preditivos, ao lado da entrevista estruturada, das provas de trabalho, das provas de conhecimento e do inventário biográfico. O achado maior da revisão é esse: métodos amarrados ao trabalho concreto preveem melhor do que medidas gerais de traços psicológicos.

Uma ressalva de honestidade, porque ela é a parte mais útil para quem decide. Esses números não são constantes da natureza. O assessment center mudou quatro posições no ranking por causa de uma decisão metodológica sobre qual confiabilidade usar, não por causa de dado novo de campo. Leia as estimativas como ordem de grandeza e como comparação relativa, nunca como nota de corte.

Se a entrevista estruturada lidera o ranking e custa uma fração, o assessment center precisa justificar a diferença.

Bom para decidir, fraco para desenvolver

Este é o ponto que mais contraria o modo como o método é vendido no Brasil, e por isso merece cuidado na leitura.

O Office of Personnel Management registra que, de modo geral, há pouca evidência de que o assessment center produza informação útil sobre os pontos fortes e fracos relativos de um indivíduo. A conclusão prática que eles tiram é direta: o método serve bem para decisões de seleção, e rende bem menos como devolutiva de desenvolvimento.

Isso não quer dizer que a experiência não ensine nada a quem participa, nem que a devolutiva não tenha valor. Quer dizer que o gráfico de radar com cinco competências pontuadas de um a cinco, entregue no fim do processo como se fosse um diagnóstico individual preciso, promete mais do que o método sustenta. O assessment center é bom em ordenar candidatos para uma decisão. É fraco em afirmar, com segurança, que uma pessoa específica é forte em comunicação e fraca em planejamento.

A consequência prática é escolher um propósito e assumi-lo. Se o objetivo é decidir quem promover ou contratar, o método serve e serve bem. Se o objetivo é montar um plano de carreira individual, a devolutiva do assessment center é um insumo entre outros, e provavelmente não o melhor deles, porque o acompanhamento continuado no trabalho real observa a pessoa em muito mais situações e ao longo de muito mais tempo.

O que pesa a favor: o candidato aprova e o método é equilibrado

Duas vantagens do assessment center são pouco comentadas e valem mais do que parecem.

A primeira é a reação de quem participa. Segundo o Office of Personnel Management, os candidatos costumam reagir bem aos exercícios e percebem o processo como muito justo, porque a relação entre o que estão fazendo e o trabalho é evidente. Exercícios que simulam tarefas reais funcionam ainda como uma prévia realista da função, o que ajuda os dois lados: quem não gostou do que viu desiste antes de aceitar a proposta. É um ganho direto de experiência do candidato, num momento do funil em que muita empresa perde gente boa por processo opaco.

A segunda é a equidade. A mesma fonte registra que, de modo geral, encontra-se pouca ou nenhuma diferença de desempenho entre homens e mulheres ou entre candidatos de raças diferentes, embora a presença de diferenças possa depender das competências que estão sendo avaliadas. Essa última ressalva não é detalhe: ela devolve a responsabilidade para quem escolhe as competências, no começo do desenho. Método equilibrado avaliando a competência errada continua produzindo resultado enviesado.

Quando o custo se justifica

O assessment center é caro de desenvolver e caro de aplicar. Exige experiência para construir, planejamento logístico para montar e várias pessoas para operar. Precisa de avaliadores bem treinados, de espaço adequado e de atualização periódica do material. O tempo de aplicação cresce com o número de candidatos, o que torna o método impraticável em etapa de alto volume e recomenda uma triagem anterior que reduza a lista a um grupo pequeno, como o desenho do funil de recrutamento já prevê.

Do lado da aplicação, o ganho de produtividade obtido ao selecionar melhor gestores e profissionais qualificados fica, em média, bem acima do custo de aplicar o método. É por isso que ele se concentra onde se concentra: cargos de liderança e gestão, atendimento e vendas. É também por isso que ele aparece com frequência em programas de trainee, em que há muitos candidatos disputando poucas vagas de alto investimento e a empresa vai conviver anos com a escolha.

Falta desfazer um nó que os números deixam no ar, e ele é importante. Se a entrevista estruturada tem validade maior e custa muito menos, por que fazer assessment center? A pergunta só faz sentido se os dois forem tratados como alternativas excludentes, e não são. Métodos de seleção quase sempre são usados em conjunto, e a pergunta correta não é qual dos dois prevê melhor sozinho, e sim o que o assessment center acrescenta a uma entrevista estruturada que já está bem-feita. A aposta do método está aí: observar comportamento acontecendo em situação, em vez de ouvir o relato de um comportamento passado. Se a sua entrevista ainda não é estruturada, é nela que está o maior ganho por real investido, e o assessment center pode esperar.

A regra de bolso que sai disso é simples. Quanto maior o custo de errar a contratação, e quanto mais o trabalho depender de comportamento em situação que a conversa não revela, mais o assessment center se paga como etapa adicional. Para vagas de alto volume e baixa complexidade, ele é caro demais e a entrevista estruturada resolve melhor sozinha.

Antes de contratar um assessment center, responda a quatro perguntas nesta ordem. Primeira: para que decisão específica ele vai servir? Contratar, promover ou desenvolver? Se a resposta for desenvolver, reveja o plano, porque a evidência é fraca justamente aí. Segunda: quais competências, tiradas de onde? Se vierem de uma lista genérica e não do cargo, volte ao mapeamento antes de contratar qualquer coisa. Terceira: quem vai avaliar, e esses avaliadores foram treinados a registrar comportamento em vez de dar nota por impressão? Sem isso, o resto é cenário. Quarta: sua entrevista já é estruturada? Se ainda não for, comece por ela, que entrega mais por muito menos, e traga o assessment center depois, como etapa que acrescenta o que a conversa não mostra.

Perguntas frequentes sobre assessment center

Assessment center é a mesma coisa que dinâmica de grupo?

Não. A dinâmica de grupo pode ser um dos exercícios de um assessment center, mas sozinha não é um. O que caracteriza o método é o conjunto: competências definidas antes a partir do cargo, mais de um exercício simulando o trabalho, mais de um avaliador treinado registrando comportamento observado e uma etapa final que integra tudo numa decisão. Uma dinâmica isolada, avaliada por quem estava disponível no dia, é uma dinâmica isolada.

Assessment center serve para desenvolver pessoas ou só para selecionar?

A evidência é bem mais forte para seleção. O Office of Personnel Management avalia que o método é muito útil para decidir e pouco confiável como retrato individual, porque há pouca evidência de que ele identifique bem em que cada pessoa é mais forte ou mais fraca. Na prática, use-o para ordenar candidatos e trate a devolutiva como um insumo de conversa, nunca como diagnóstico fechado de desenvolvimento.

Assessment center vale a pena para empresa pequena?

Depende do cargo, não do tamanho da empresa. O método se paga quando o custo de errar é alto e o trabalho depende de comportamento em situação, o que costuma acontecer em posições de liderança, atendimento e vendas. Uma empresa pequena contratando seu primeiro gestor pode justificar uma versão enxuta, com dois exercícios e dois avaliadores preparados. Antes disso, porém, vale garantir que a entrevista já seja estruturada, porque é ali que está o maior ganho com o menor custo.

Fontes e referências

Temas ligados: se você está desenhando a etapa anterior do processo, vale ler sobre testes e dinâmicas de seleção e sobre o desenho geral de recrutamento e seleção.

Métodos de seleção funcionam melhor quando são discutidos com quem já testou na prática. Participe da comunidade do Promova RH e troque com outros profissionais de gestão de pessoas sobre o que funciona no dia a dia. Faça parte da comunidade.

Escrito por
José Erlan Dias Alves

Fundador do Promova RH e criador da CGLC. Há mais de uma década na interseção entre base acadêmica e prática de gestão de pessoas.

Comunidade Promova RH

Receba os artigos e os convites para os encontros.

Conteúdos, leituras selecionadas e convites para a comunidade, direto no seu e-mail. Sem ruído.

Cadastro em breve. Enquanto isso, acompanhe os artigos e a agenda de encontros.