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Liderança

Liderança positiva: o que é e como praticar de verdade

Liderança positiva não é otimismo forçado. São quatro estratégias da Universidade de Michigan e uma rotina de conversa que devolve tempo ao gestor.

Líder experiente sorrindo e reconhecendo o trabalho de uma colega mais jovem, em luz natural quente

Liderança positiva é uma abordagem de gestão que inverte a pergunta de partida. Em vez de olhar primeiro para o que está quebrado e precisa de conserto, ela pergunta o que já funciona bem e pode ser ampliado. Não é otimismo forçado nem proibição de falar de problema. É um conjunto de práticas estudadas na Universidade de Michigan, organizadas em quatro estratégias, com um objetivo declarado: chegar ao desempenho que fica acima do esperado, e não apenas ao desempenho aceitável.

O que a liderança positiva propõe

A maior parte das ferramentas de gestão de pessoas nasce de uma lógica de déficit. A avaliação lista o que falta. O plano de desenvolvimento ataca a lacuna. A reunião de resultado começa pelo indicador que ficou vermelho. Nada disso é errado, e uma organização que ignora seus problemas não dura. O ponto da liderança positiva é que essa lógica, sozinha, tem um teto: ela consegue levar a equipe do ruim ao aceitável, e raramente do aceitável ao extraordinário.

Kim Cameron, professor da Ross School of Business, na Universidade de Michigan, chama isso de olhar para a lacuna de abundância em vez da lacuna de déficit. A pergunta muda de “o que está faltando para atingirmos o padrão?” para “o que aconteceria se levássemos ao limite aquilo que já fazemos excepcionalmente bem?”. O nome técnico do alvo é desvio positivo: o resultado que foge da média para cima, do mesmo jeito que uma crise foge para baixo.

Vale registrar o que a abordagem não diz, porque é onde ela mais é distorcida. Entre as práticas recomendadas pelo próprio material da universidade está, textualmente, tratar as fraquezas para construir competência. Liderança positiva não manda ignorar o que vai mal. Ela manda parar de gastar toda a atenção da gestão nisso.

As quatro estratégias da liderança positiva: clima, relações, comunicação e sentido
As quatro estratégias que sustentam a abordagem.

As quatro estratégias

Cameron e Lynn Wooten organizam a prática em quatro frentes que se reforçam. Nenhuma delas é um discurso; todas são comportamentos observáveis do gestor.

Clima positivo. Três práticas sustentam o clima: compaixão, perdão e gratidão. Compaixão aqui não é sentimento, é processo: perceber que alguém está passando por algo difícil, comunicar, demonstrar cuidado e organizar uma resposta concreta da equipe. Perdão significa reconhecer o dano, manter o padrão de exigência e ainda assim soltar o rancor, para que o erro não vire dívida permanente. Gratidão significa expressões frequentes e públicas de reconhecimento, o que conecta diretamente com o que já se sabe sobre reconhecimento no trabalho.

Relações positivas. A ideia central é a de energizador positivo: a pessoa que, depois de uma conversa, deixa quem falou com ela mais disposta do que antes. O papel do líder é identificar quem são essas pessoas na equipe, reconhecê-las e apoiá-las, e depois colocá-las em posições onde muita gente interage com elas, inclusive pedindo que orientem colegas. Redes de energia bem construídas melhoram a coordenação, a colaboração e a eficiência das interações.

Comunicação positiva. Não significa elogiar sempre. Significa trocar a linguagem crítica e avaliadora por linguagem de apoio, especialmente quando o assunto é ruim. As três regras mais importantes da comunicação de apoio são: ser congruente, ou seja, dizer o que de fato se pensa e se sente; ser descritivo, mantendo o foco no problema e não na pessoa, sem rótulo nem julgamento; e ser validador, deixando claro que a visão do outro tem valor. É a mesma gramática do bom feedback contínuo.

Sentido positivo. Quando a pessoa entende que o trabalho dela serve a um propósito que ela considera importante, caem estresse, rotatividade, absenteísmo e insatisfação, e sobem comprometimento, esforço, engajamento e realização. O trabalho do gestor aqui é concreto: mostrar o efeito do trabalho de cada um sobre outras pessoas, criar oportunidades de contato direto com quem é servido pela entrega e ajudar o time a enxergar o que está construindo no longo prazo.

Liderança positiva não é a que evita a conversa difícil. É a que consegue ter a conversa difícil sem destruir a relação.

A conversa que faz a engrenagem girar

A parte mais prática da abordagem, e a menos citada, é o mecanismo de implantação. As quatro estratégias não se sustentam em campanha interna: elas se sustentam em uma rotina de conversa individual entre o líder e cada pessoa da equipe, que Cameron e Wooten chamam de programa de entrevista de gestão pessoal.

São dois componentes. O primeiro é uma conversa inicial de acordo de papéis, em que ficam explícitos expectativas, responsabilidades, critérios de avaliação, relações de reporte e valores. O segundo é uma rotina de encontros individuais, privados e presenciais, de 45 a 60 minutos, com pauta previsível: obstáculos ao trabalho, informação que precisa circular, questões interpessoais, necessidades de treinamento, retorno sobre desempenho, recursos necessários e prestação de contas dos compromissos anteriores. Cada encontro termina com acordos específicos e responsáveis definidos. É, na prática, a versão estruturada da reunião individual que muitos gestores já fazem de forma improvisada.

O material da universidade relata que implantar esse programa melhora de forma significativa fatores subjetivos, como moral, confiança e engajamento, e também objetivos, como produtividade e cumprimento de metas. E traz um efeito colateral que costuma convencer o gestor cético: em média, líderes que adotam a rotina liberam quase um dia por mês de tempo próprio, porque caem as interrupções, as reuniões não programadas, os erros e o tempo gasto apagando incêndio. A conversa que parecia custar tempo devolve tempo.

Comece pelo acordo de papéis, não pelo elogio. Marque com cada pessoa da equipe uma conversa de 45 a 60 minutos e escreva, junto com ela, quatro coisas: o que se espera dela nos próximos seis meses, como o resultado será avaliado, quais decisões ela pode tomar sozinha e o que ela precisa de você para entregar. Só depois disso comece a rotina quinzenal ou mensal, sempre com a mesma pauta e sempre com registro dos acordos. Sem o acordo inicial, a conversa recorrente vira desabafo sem consequência; com ele, vira o lugar onde o combinado é cobrado e revisto.

Metas difíceis, não metas confortáveis

Há um mal-entendido comum de que uma abordagem positiva significa metas mais fáceis. O material da Michigan afirma o contrário, e de forma direta: o desempenho é mais baixo quando as metas são fáceis, e igualmente baixo quando não há meta ou quando ela é genérica demais. O desempenho sobe quando as metas são difíceis, em especial metas difíceis e bem formuladas.

Além das metas SMART, específicas, mensuráveis, alinhadas, realistas e com prazo, a abordagem propõe um segundo tipo, batizado de meta Everest. Uma meta Everest continua sendo SMART, mas acrescenta cinco características: representa desvio positivo, ou seja, mira a abundância e não a correção de uma falha; tem valor em si mesma, não é degrau para outra coisa; foca em forças e oportunidades em vez de problemas; representa contribuição, e não conquista pessoal; e gera energia sustentável, dispensando cobrança externa para ser perseguida.

O teste prático é simples. Se a meta da sua área cabe inteira numa planilha de correção de desvio, provavelmente ela é necessária, mas não vai mobilizar ninguém além do horário comercial.

Onde a liderança positiva costuma dar errado

O erro mais comum é confundir a abordagem com positividade obrigatória. Quando a organização começa a tratar toda menção a problema como falta de atitude, o efeito é o oposto do pretendido: as pessoas param de trazer risco à mesa e a gestão perde a única fonte de informação que tinha. A comunicação de apoio existe justamente para o momento em que o comportamento precisa ser corrigido, e não para substituí-lo por silêncio simpático.

O segundo erro é o teatro da gratidão. Mural de elogios, mensagem automática de aniversário e prêmio genérico não criam clima positivo; criam ruído. O reconhecimento que funciona é específico, próximo do fato e dito por alguém que sabe o que aconteceu.

O terceiro erro é tratar a abordagem como estilo de personalidade, algo que o gestor extrovertido faz naturalmente e o introvertido não consegue. Nada nas quatro estratégias depende de carisma. Identificar energizadores, descrever um problema sem rotular a pessoa e manter uma rotina de conversa individual são práticas aprendíveis, e é por isso que elas se encaixam bem entre os estilos de liderança que uma mesma pessoa pode combinar conforme a situação.

Perguntas frequentes sobre liderança positiva

Liderança positiva é a mesma coisa que ser um chefe legal?

Não. Ser agradável é traço de personalidade; liderança positiva é um conjunto de práticas com metas difíceis embutidas. A abordagem prevê explicitamente que o gestor corrija comportamento e trate fraquezas, só que usando comunicação descritiva, focada no problema e não na pessoa. Um gestor exigente pode praticá-la; um gestor simpático que evita conversas difíceis não está praticando.

Como praticar liderança positiva sem ignorar problemas?

Mantendo o padrão de exigência e mudando a proporção da atenção. Continue tratando o que vai mal, mas reserve tempo estruturado para identificar o que já funciona bem e ampliar. Na prática, isso aparece na pauta da conversa individual: obstáculos e retorno sobre desempenho continuam lá, ao lado de forças, contribuição e o que a pessoa quer construir.

Por onde começar a aplicar liderança positiva?

Pela rotina de conversa individual com acordo de papéis, porque é ela que sustenta as outras quatro estratégias. Depois, escolha uma prática de cada frente: expressões públicas e específicas de reconhecimento no clima, identificação dos energizadores nas relações, comunicação descritiva no retorno de desempenho e conexão visível entre o trabalho e quem é servido por ele.

Fontes e referências

Livro de referência da abordagem: Kim Cameron, Positive Leadership: Strategies for Extraordinary Performance, Berrett-Koehler, 2008.

Para aprofundar: o que é liderança, liderança servidora, engajamento de colaboradores e gestão de equipes.

Como sua liderança trata o que já funciona bem? Na comunidade da Promova RH, profissionais de gente trocam práticas testadas de desenvolvimento de líderes e discutem o que funciona em cada realidade.

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Escrito por
José Erlan Dias Alves

Fundador do Promova RH e criador da CGLC. Há mais de uma década na interseção entre base acadêmica e prática de gestão de pessoas.

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