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Cultura

Diversidade e inclusão nas empresas: do discurso à prática

Diversidade é quem está na sala. Inclusão é quem consegue contribuir e pertencer. Entenda a diferença, o que mostram os dados e por onde um RH começa na prática.

Diversidade e inclusão: pessoas em ambiente de trabalho, capa do artigo do Promova RH

Diversidade e inclusão nas empresas saíram da pauta de imagem e entraram na de estratégia. Só que os dois termos viraram uma dupla tão automática que muita gente perdeu de vista que eles descrevem coisas diferentes, e que uma sem a outra não sustenta resultado.

Diversidade é composição: quem está na sala. Inclusão é experiência: quem consegue falar, discordar, crescer e pertencer depois que entrou. Dá para ter um quadro diverso e profundamente excludente, e é justamente aí que a maioria dos programas trava.

Comparação entre diversidade e inclusão nas empresas
Diversidade é composição; inclusão é experiência. Uma sem a outra não se sustenta.

O que são diversidade e inclusão nas empresas?

Diversidade é a presença de diferenças num mesmo grupo: gênero, raça, idade, origem social, deficiência, orientação sexual, trajetória. É mensurável e aparece em painel: quantas mulheres na liderança, quantas pessoas negras no quadro executivo, qual a distribuição por faixa etária.

Inclusão é o conjunto de práticas que faz essas diferenças poderem contribuir. Uma pessoa incluída tem voz nas decisões, acesso às mesmas oportunidades e segurança para ser quem é sem pagar um preço por isso. Sem inclusão, a diversidade contratada vai embora pela porta dos fundos: entra, não se sente parte e pede demissão. É o oposto de uma cultura organizacional que retém.

Há ainda um terceiro termo que costuma entrar na sigla, a equidade. Equidade é tratar de forma diferente quem parte de pontos diferentes, para que a chegada seja justa. É o que distingue dar a todos exatamente o mesmo de dar a cada um o que precisa para competir em pé de igualdade.

A diversidade tem muitas dimensões, e algumas são invisíveis. As mais lembradas são gênero, raça e etnia, mas também contam a idade (a convivência entre gerações), a deficiência, a orientação sexual e a identidade de gênero, além da origem social e da formação. Programas maduros não elegem uma bandeira só: entendem que a maioria das pessoas cruza várias dessas dimensões ao mesmo tempo, e é nesse cruzamento que as barreiras se somam.

Por que investir em diversidade e inclusão

O argumento de negócio existe e é sólido, desde que lido com cuidado. O estudo Diversity Wins, da McKinsey (2020), analisou mais de mil empresas em quinze países e encontrou o seguinte: as companhias no quartil superior de diversidade de gênero em seus times executivos tinham 25% mais probabilidade de lucratividade acima da média que as do quartil inferior. Para diversidade étnica e cultural, a diferença chegava a 36%.

Vale a honestidade metodológica: isso é correlação, não prova de causa. Empresas bem geridas tendem a ser, ao mesmo tempo, mais lucrativas e mais diversas. Ainda assim, a direção se repete a cada edição do estudo e conversa com o que se sabe sobre decisão: times homogêneos concordam rápido e erram junto; times diversos atritam mais e enxergam mais ângulos.

Diversidade é quem você contrata. Inclusão é quem consegue ficar, contribuir e crescer depois que entrou.

Além do resultado financeiro, há ganhos concretos: decisões menos enviesadas, produtos que servem a um público que também é diverso e uma marca empregadora que amplia o funil de talento em vez de estreitá-lo. É aqui que mora um risco comum: confundir fit cultural com contratar gente parecida. Fit é compartilhar valores, não sotaque, bairro ou faculdade.

O Brasil ainda para no meio do caminho

Boa parte das empresas brasileiras contrata diversidade na base e a perde na subida. O levantamento Perfil Social, Racial e de Gênero das Maiores Empresas do Brasil, do Instituto Ethos, descreve há anos o mesmo padrão: pessoas negras são presença expressiva entre aprendizes e trainees, mas sua participação cai de forma acentuada na gerência e quase desaparece no quadro executivo. É o chamado afunilamento hierárquico.

O diagnóstico importa porque muda onde o RH age. Se a diversidade entra mas não sobe, o problema não está na atração, está nos critérios de promoção, no acesso a projetos de visibilidade e na falta de patrocínio para quem não faz parte do grupo majoritário. E costuma aparecer antes na pesquisa de clima do que no organograma.

Como sair do discurso: cinco movimentos

Programa de diversidade que começa pela comunicação erra a ordem. Ele começa pelo diagnóstico e termina na medição:

  1. Meça antes de falar. Levante a composição atual por nível hierárquico. Sem linha de base não há meta nem prova de avanço.
  2. Defina metas com prazo. Aspiração sem número não move ninguém. Metas por recorte e por nível, revisadas em comitê.
  3. Tire o viés do processo, não da intenção. Vagas com descrição neutra, painéis de entrevista diversos, critérios de decisão definidos antes de ver o candidato.
  4. Prepare a liderança. Quem promove precisa de letramento e de responsabilização. Inclusão se ganha ou se perde na relação diária com o gestor.
  5. Meça inclusão, não só diversidade. Pergunte na pesquisa se as pessoas se sentem à vontade para discordar e ser quem são. Esse é o número que prevê retenção, e conversa direto com os valores da empresa vividos na prática.

Erros que fazem o programa fracassar

Boa intenção não basta. Os tropeços mais comuns se repetem de empresa para empresa:

  • Tokenismo: contratar uma pessoa de cada grupo para a foto e não mudar nada no poder de decisão. As pessoas percebem, e o efeito é pior que a inércia.
  • Comitê sem orçamento nem mandato: um grupo voluntário, sobrecarregado, sem verba e sem autoridade para mudar processo. Vira reunião, não resultado.
  • Meta sem dono: número bonito na apresentação anual que ninguém é responsável por entregar. Sem dono e sem prazo, meta é desejo.
  • Ignorar a interseccionalidade: tratar gênero e raça em trilhas separadas e não enxergar quem acumula as duas barreiras, que costuma ser quem mais sofre o afunilamento.
  • Parar na contratação: comemorar a entrada e esquecer promoção, salário e permanência. Diversidade que não sobe não se sustenta.

Repare que nenhum desses erros é sobre falta de boa vontade. São falhas de desenho: governança fraca, ausência de dados e foco só na entrada. Corrigir o desenho é o que separa o programa que muda o organograma daquele que só rende post.

Antes de lançar qualquer campanha, rode um recorte simples: pegue a distribuição de gênero e raça em cada nível hierárquico, do operacional ao comitê executivo. Se o percentual encolhe a cada degrau que sobe, você não tem um problema de atração, tem um problema de promoção. É por aí que o plano começa, e é isso que a diretoria precisa ver antes de aprovar orçamento.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre diversidade e inclusão?

Diversidade é a composição do grupo, quem está presente em termos de gênero, raça, idade e outras dimensões. Inclusão é a experiência de poder contribuir e pertencer. Dá para ter diversidade sem inclusão, e nesse caso as pessoas contratadas tendem a ir embora.

O que é equidade nas empresas?

Equidade é ajustar o tratamento para corrigir pontos de partida desiguais, de modo que a chegada seja justa. Diferente de igualdade, que dá a todos exatamente o mesmo, a equidade dá a cada pessoa o que ela precisa para competir em condições comparáveis.

Diversidade aumenta o lucro?

Estudos como o Diversity Wins, da McKinsey, mostram forte correlação entre diversidade na liderança e lucratividade acima da média, mas correlação não é prova de causa. O ganho mais seguro está em decisões melhores, inovação e acesso a talento.

Por onde uma empresa começa em diversidade e inclusão?

Pelo diagnóstico. Levantar a composição atual por nível hierárquico revela onde a diversidade entra e onde ela some, e é isso que define as prioridades do programa antes de qualquer campanha.

Fontes e referências

Diversidade e inclusão avançam mais rápido quando o RH troca o que funciona (e o que não funciona) com outros times. Participe da comunidade Promova RH e leve suas dúvidas para a mesa.

Escrito por
José Erlan Dias Alves

Fundador do Promova RH e criador da CGLC. Há mais de uma década na interseção entre base acadêmica e prática de gestão de pessoas.

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